Não há possibilidade de golpe, dizem professores e cientistas políticos

Cientistas políticos afirmam que processo de impeachment não é sublevação

“Um país dividido num ambiente movido a tantas paixões, desconfianças, mágoas e ódio”, essa é análise do cientista político Eduardo Magalhães sobre a realidade brasileira.

De acordo com ele, a sociedade vive uma completa e total falta de credibilidade nos políticos, de ausência de lideranças e a possibilidade de golpe não existe até porque, “como indica a palavra, golpe é uma coisa inesperada, rápida, furtiva, clandestina, improvisada. E um golpe de estado é propulsionado à violência, ao desejo de vingança, de dominação”.

Ranulfo Paranhos, que também é cientista político, diz que o cenário é de incerteza dos resultados a que podem chegar a Justiça e de um possível rearranjo dos partidos políticos, tornando a base do Governo minoritária e, portanto, sem governabilidade, sendo assim cada vez maior a possibilidade de impeachment. “Nunca tivemos um protagonismo tão forte da Justiça e da Polícia Federal. Oposição e Governo fazem o seu papel, mas isso não pode comprometer o comportamento das instituições Polícia Federal e Justiça”, argumentou.

Na opinião de Ranulfo, as manifestações demonstram uma posição majoritária contrária ao Governo e cerca de 70% favorável ao Impeachment. “Esse processo de impeachment não tem nada de golpe. Não há o menor comparativo com o processo de 1964, liderado por militares, com cassação de direitos políticos e a criação de um estado de exceção”, analisou.

O que se vê, segundo ele seria um processo de Impeachment podendo ser barrado na Câmara dos Deputados ou no Senado, a renúncia da presidente, o Impeachment e Cassação da Chapa Dilma/Temer pelo TSE.

Socióloga diz que elite quer voltar ao poder

A socióloga Joana Macêdo explica que o que está acontecendo é a vontade da elite voltar ao poder, com um discurso que melhor lhe favorece, negando fatos do passado e os atuais sobre a corrupção, existentes dentro do ambiente que é defendido por eles. “O que presenciamos é uma inversão de sentido. O discurso produzido é que apontam que o sentido pode ser e é outro, numa manobra para efetivar sua posição e, assim, confundir e homogeneizar sentidos antagônicos”, pontuou.

Assim como Eduardo Magalhães, ela diz que a sociedade está dividida, que existe um conflito da luta de classes. Joana diz que de um lado a classe da elite (economicamente e socialmente favorecida) busca retomar o que para ela lhe foi tirado – o poder e seus benefícios – e do outro a classe trabalhadora (economicamente e socialmente desfavorecida) tenta expandir e consolidar alguns direitos adquiridos que em governos anteriores não obtiveram.

Segundo Macêdo, não há como afirmar que vai existir golpe, contudo existe um estratagema para isso. No entanto, “não há legalmente nada que implique essa ação à Presidente da República Dilma Rousseff”, pontuou a socióloga citando que as pedaladas fiscais são estratégias contábeis praticadas pelos governos e que nesse caso, “fica nítido o interesse político que há na tentativa de retirar do poder de Dilma Rousseff, a qual foi legitimamente eleita por 51,64% da sociedade brasileira”.

A socióloga pontua que a necessidade da sociedade é o fio da governabilidade, ou seja, “um governo para a sociedade em geral e não governo com interesses próprios como estamos presenciando”, falou.

Historiador afirma que clima no Brasil é de final de governo

O historiador Geraldo Majella é categórico ao afirmar que hoje o Brasil enfrenta uma crise. “Hoje, é possível saber que havia uma sofisticada organização criminosa constituída por esses partidos políticos, funcionários da Petrobras, empresas do ramo de petróleo e gás e empreiteiras. O cenário se complica ainda mais com a crescente e acentuada crise econômica que associada à crise política, moral e ética tem deixado milhões de brasileiros sem trabalho, a inflação voltou a subir. O clima é de final de governo”, apontou.

Majella, diz que não há dúvidas de que há uma divisão sim e é fácil identificar esses autores: “a opinião pública é majoritariamente contra o governo. Os defensores do governo e das políticas sociais do governo Dilma e Lula são minoritários, são basicamente os setores à esquerda e do campo da sociedade civil organizada, são os sindicatos, centrais sindicais, movimento estudantil, os movimentos que lutam pela reforma agrária, notadamente o MST e muitos intelectuais”, apontou.

De acordo com ele, os partidos de oposição e seus principais líderes não conseguem construir uma proposta que aponte saídas para a crise econômica, pois no campo político, agem de maneira temerosa, muitos dos oposicionistas sofrem também com acusações de corrupção e a oposição tem contado com a blindagem das grandes redes de comunicação que exercem o controle das mídias nacional. “Tudo isso fez com que grandes manifestações acontecessem contra o governo e também em defesa do governo”, falou.

Otimista, ele diz que o Brasil tem tudo para se reerguer, mas para isso os brasileiros têm que se posicionar para evitar que a ordem constitucional não seja violada e um governo eleito pelo voto popular seja derrubando sem que seja identificado o crime que praticou. “A baixa popularidade não é e não pode ser motivo para impeachment. E vamos nos reerguer na democracia”, ressaltou.

Majella diz que golpe é contra Constituição

Geraldo Majella diz que as violações comandadas pelo juiz Sérgio Moro, como a “condução coercitiva” do ex-presidente Lula, as gravações das conversas entre ele e a presidente Dilma com a divulgação em seguida, uma semana antes das manifestações do dia 13 de março, são ações extravagantes. “Se não é um Golpe de Estado clássico é um golpe contra a constituição e uma gravíssima violação do direito individual que é protegido pela própria constituição”, analisou.

Cientista espera resposta de instituições

A cientista política Luciana Santana espera que não exista golpe. “Ainda acredito na capacidade das instituições de darem uma resposta dentro das regras democráticas. Temos uma nova conjuntura, novos temas que pautam as manifestações, uma sociedade mais informada do que a da década de 1960, dentre outros aspectos. Digo isso para reforçar que a sociedade brasileira tem condições de buscar uma solução democrática para a crise política atual”, argumentou.

 

/ Tribuna Independente 26 Março de 2016 – 09:00

Disponível em: Tribuna Hoje

 

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