Chances remotas para Dilma continuar presidente

Cientista político acredita que presidente já enxerga minoria no Senado.

Depois de aprovado na Câmara dos Deputados, o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) segue para aprovação no Senado. O cientista político Ranulfo Paranhos faz uma avaliação de todo o cenário político que o país vem enfrentando e explica que a crise econômica foi a grande propulsora da crise política. De acordo com ele, só um milagre poderia reverter essa situação da presidente, que hoje, também encontra dificuldades de governabilidade. Para ele, o país continuará travado até que todas as etapas do processo sejam concluídas.

Tribuna Independente – O país vivenciou no domingo, dia 17, um capítulo histórico na aprovação na Câmara dos Deputados sobre o processo de impeachment contra a presidente Dilma. A presidente pode conseguir sobrevida no Senado?

Ranulfo Paranhos – É muito remoto que ela (Dilma Rousseff) consiga sobrevida. Hoje, no Senado, a expectativa é de 47 votos favoráveis. Serão três momentos: a primeira votação de aceitação do processo de impedimento, que é necessário apenas 50% mais 1, ou seja, 41 votos, a segunda também com 50% mais 1 é para o afastamento e a terceira definitiva que é para o impeachment – que é o afastamento definitivo- será necessário 2/3 dos votos. O afastamento já está garantido. Se você observar que ela perdeu na Câmara e que o Senado hoje já apresenta algo próximo a 47 votos, eu acredito que chegue acima de 50 votos, no mínimo. A presidente será afastada e quando afastada nós teremos então um presidente interino, que é o vice Michel Temer. Você tem agora uma Dilma afastada sem poder de decisão, sem poder de barganha. Ela não terá o que chamamos do poder da caneta, então fica muito fácil para ele, que pode negociar e prometer como ela tentou fazer antes do processo da Câmara. Isso faz parte do jogo político. O Lula estava negociando um governo naufragando enquanto que o Temer negociando um governo de inauguração, de promessas. É muito mais difícil pro governo Dilma tentar resgatar isso. Eu diria que um milagre seria necessário para salvar a Dilma desse afastamento.

Tribuna Independente – A Câmara dos Deputados tratou o impeachment como um grande teatro, eximindo discursos sobre responsabilidade fiscal. Isso é uma clara demonstração a interesses próprios?

Ranulfo Paranhos – Parlamentares racionalizam todas as suas ações da seguinte forma: a minha ação enquanto parlamentar ela garante meus votos, aumenta a minha quantidade de votos ou reduz as minhas quantidades de votos. Todo parlamentar quando proferiu o seu voto foi pensando nisso. Os parlamentares do PT perderiam mais votos se votassem contra porque a base deles é uma base de esquerda, uma base que ainda defende a presidente e o papel deles é realmente votar contra o impeachment. Aí, você tem o restante dos parlamentares que tem um voto mais de eleitor médio, que é favorável ao impeachment e o parlamentar que fez essa leitura foi lá e votou favorável. Mas aquele circo que a gente vivenciou lá não foi muito diferente de 92. Todo o discurso feito ali foi para a sua base, dois ou três fizeram o discurso que a gente esperava que era dizendo que confiava no relatório.

Tribuna Independente – O impeachment também reverbera o claro sinal de crise política. A perspectiva é que o governo siga travado até a conclusão deste processo?

Ranulfo Paranhos – Diante dessa discussão sob impeachment que já tem um ano, é preciso resolver a questão econômica que hoje é preponderante porque se você tem crise econômica, você tem aumento das taxas, insatisfação da população, aumento de desemprego, aumento da taxa de violência e aí, eu começo a entrar no caos social. Tudo isso é questão econômica. O país fechou o ano de 2014 com uma crescimento de 0,01% é como se você não tivesse enriquecido nada. Fechou 2015 com um déficit e é como se a gente tivesse empobrecido e vai fechar 2016 com um empobrecimento em torno de 4%, ou seja, com uma taxa de inflação acima dos dois dígitos e algo próximo a 11 milhões de desempregados. A perspectiva é de um país travado e para destravar eu preciso criar políticas.

Tribuna Independente – O que esperar de Michel Temer e Eduardo Cunha?

Ranulfo Paranhos – Se tivesse um bolão e a gente pudesse fazer uma aposta, eu diria que o Cunha até o final do ano é carta fora do baralho. Todo esse temor da classe política e da sociedade, ou até mesmo da classe política, eu não acredito que ele consiga se livrar da Lavo Jato a médio prazo. Ele pode se salvar entre os pares. Eu até apostaria que ele se salva do Conselho de Ética, mas da Lava Jato é muito difícil. Eu não apostaria num Cunha vice-presidente, por isso, não há porque ter medo em relação ao Cunha. Já com relação ao Michel Temer, ele não é réu, ele assume e se livra do processo temporariamente e sendo ele uma representação do PMDB, não vai fazer um governo de salvação porque a economia não vai permitir. Mas, ele vai saber negociar com o parlamento de forma eficiente e deve apresentar pelo menos uma saída econômica que a curto prazo o país inteiro vai sentir, mas que a médio prazo vai trazer resultados.

Tribuna Independente – O discurso de novas eleições foi sutilmente citado. O tema revela uma demonstração de que a derrota da atual oposição não foi aceita?

Ranulfo Paranhos – Eles não aceitam. O PT nunca aceita nada. Ele criou no país uma cultura do impeachment desde a época de Sarney e hoje ele sofre com isso. Possivelmente ele vai ter uma presidente sofrendo impeachment por uma cultura que ele criou e agora ele começa a criar as judicializações das decisões políticas, o que é muito ruim.

Tribuna Independente – A bancada alagoana optou em sua maioria por ser favorável ao impeachment. A mudança de postura é uma contradição já que muitos parlamentares têm cargos de indicação do governo federal?

Ranulfo Paranhos – Eles calcularam e isso já era esperado. Ao longo do processo, que foi ganhando força e aumentando a pressão e eles pensaram: se eu tenho a maioria das pessoas pedindo o impeachment, eu vou votar favorável ao impeachment. Há uma racionalidade nestes votos. Eu perco os cargos, muda o presidente e eu ganho novamente.

Tribuna Independente – O que esperar de Renan Calheiros na presidência do Senado em relação ao impeachment?

Ranulfo Paranhos – Renan Calheiros recebeu uma pressão muito forte, vestiu a carapuça da imparcialidade, mas diante dela, ele aceitou que na segunda fosse montada a comissão, o que significa dizer que ele está cedendo. Ele é o que está mais tempo entre os jogadores, é o que acumula mais poderes, é o que negocia mais. Um senador é uma das 85 pessoas mais importante desse país e nessa linha, eu diria que o Renan é uma das cinco pessoas mais importante do país do ponto de vista de acumulação de poder político. Ele é o que está mais tempo entre os jogadores, é o que acumula mais poderes, é o que negocia mais. Um senador é uma das 85 pessoas mais importante desse país e nessa linha, eu diria que o Renan é uma das cinco pessoas mais importante do país do ponto de vista de acumulação de poder político.

 

/ Tribuna Independente 25 Abril de 2016 – 09:56

Disponível em: Tribuna Hoje

 

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